domingo, 2 de julho de 2017

18.6.17 - Ilha Terceira

O azul do mar e o verde do Monte Brasil invadem o quarto com uma luz matinal digna de um filtro do Instagram ou, melhor ainda, das lentes dos meus Oakley!
O mar espera-me e é com grande entusiasmo que vou até à baía de Silveira para fazer o primeiro mergulho de escafandro nos Açores.
Moreias amarelas e castanhas, moreias azuis, com as suas bocas bem abertas ( são assustadoras, é verdade, mas o verdadeiro problema é quando fecham a boca, nunca com ela aberta!), peixe-porco, peixe-rei e peixe-raínha, típicos dos corais dos trópicos, salemas e budiões.
Um micro aquário cheio de diversidade, ali numa saída de praia ao lado da cidade património da humanidade.
Quando vim à tona, com os simpáticos inglês e irlandês que me acompanhavam, vi a Joana com o olho claro do norte da Europa; e rumamos a norte, para Biscoitos com o intuito de comer cracas e outras maravilhas, juntos às piscinas naturais.
Não havia cracas, ficámo-nos por lapas e mexilhões de casca verde, enquanto um Citröen Saxo, todo equipado, se fazia ecoar por aqueles lados da ilha.
A fundo, empurrado pela beleza e pelas estradas bem asfaltadas e estreitas da ilha, percorrendo todo o qualquer caminho de terra por onde passam vacas, emocionado com tanta afficion dos ralis, fomos à Gruta do Natal.
Nada de especial, excepto as figurinhas e fotos de capacete na cabeça, para percorrer o caminho circular da gruta.
Com a morrinha a aumentar a emoção e o pequeno motor do carro a gritar como um cão esganado, percorremos a R5-2 até ao Algar do Carvão.
Uma chaminé alta ilumina deixa a luz entrar e iluminar as paredes basálticas e, lá no fundo, uma lagoa de água límpida. Uma Quinta da Regaleira esculpida por deus põe a nu as maravilhas da natureza. Das estalactites e escorrem gosta fortes de água mas o desejo de ficar naquele local mágico prevalece e é com saudade que deixamos aquele local.
Voltando à estrada, Viveiros da Falca foi o ponto seguinte e houve tempo para fotos e caretas junto de vaquinhas antes de chegarmos ao Queijo Vaquinha.
Uma tábua de três variedades serviram de lanche, acompanhada pela local Kima Maracujá.
Pela marginal fomos a S.Mateus para tirar fotos do pôr-do-sol e marcar mesa no famoso Beira-Mar.
Num restaurante apinhado, serviram-nos lapas, cracas e um boca-negra, muito bem regados com um Alvarinho de Anselmo Mendes. Ficou a faltar um cavaco; mas vem numa próxima!
De regresso a Angra, num bar a televisão mostra imagens do Rali da Ilha Azul. Que mais poderia ser?!




quinta-feira, 22 de junho de 2017

17.6.17 - Porto | Angra do Heroísmo

Há alguns anos atrás, penso que havia um slogan do turismo dos Açores que dizia algo do género "Açores: férias que nunca esquece". E eu não esqueci as semanas que passei em S.Miguel há muitos muitos anos; e a Joana também não. Por isso, num misto de saudade e aventura, voamos até à Terceira.
Mas nem tudo foi simples: o plano inicial era ir para outra terra verde, cujo nome também começa por A; depois para outra terra igualmente verde mas cujo nome começa por S. E finalmente, com um briefing sussurrado entre portas na Agência Paraíso, em tempo record, surge a hipótese de ir à Terceira,  para um hotel de 5*, logo no dia a seguir. Profissionalismo do mais alto nível!
Tudo a correr: a Joana a vir de Lisboa, o Roças a tentar saber o melhor spot para mergulhar, não havia lugar no parque de estacionamento do aeroporto e lá ao fundo, a mais de 1.500 km de distância, um paraíso. Arranjar lugar para o carro foi fácil, apenas tive que convencer a Raquel e o Bernardo a comerem uma francesinha. E foi fácil!
A partir daí, uns dias a dois.
Ao aproximarmo-nos da ilha, o arquipélago mostra-se por entre nuvens e aterrar nas Lages é como entrar no limbo: verde, com montanhas a separar-nos do mar, e mal a porta do avião abre o calor a entrar e a afirmar que nenhuma aplicação meteorológica funciona por aquelas bandas.  
No parque de estacionamento um simpático funcionário da Aguiatur entraga-nos um Ferrari ( na verdade era um Opel Corsa 1.2 ( ou menos!) mas vermelho como os da marca de Maranello) e rabisca num mapa alguns locais de passagem obrigatória e a ordem para os visitar.
Das Lages rumamos pela via rápida que recorta a serra florida de vacas, até ao nosso destino: o Monte Brasil em Angra.
Mas vá-se lá saber porquê, pelo empedrado da cidade Património da Humanidade,  perdemo-nos algumas vezes e nem um GPS, um mapa e um PSP conseguiram explicar o óbvio; e com isto, estávamos nós com um carro vermelho no meio de uma "tourada de corda", com os populares a gritarem "saiam que vem aí o touro". O que vale é que a tourada e onde nos encontrávamos era mesmo ao lado do hotel.
Foi tempo de descarregar as malas, receber as chaves do quarto, mirar a marina e o Monte Brasil a erguer-se sobre o quarto e voltar para a rua para ver a dita tourada.

Encorajados pelo álcool, bravos fazem-se ao touro e dançam à sua frente com chapéus-de-chuva coloridos. Ouvem-se gritos, aplausos, português com vários sotaques e americano. Foguetes indicam se o touro vai sair e entrar nas boxes improvisadas.
Toda a ilha está ali, naquele largo de igreja perdido no tempo, do novo ao velho, do rico ao pobre. É uma festa e a festa é de todos e para todos. Viver nas aldeias tem esse vantagem: todos estão próximos e todos se protegem, todos se divertem e todos também choram quando assim tem que ser. E o povo açoreano já chorou muito e já demonstrou ter muita coragem.

De mini na mão e petiscando aqui e ali, vejo a Joana a meter conversa com um velho sindicalista da STAL que quis falar do melhor da ilha. E nós escutamos com toda a atenção.
Com o sol a deitar-se sobre as águas do Atlântico, foi tempo de dar uma volta a pé pela cidade, ver os barcos, beber um copo e esperar que a meteorologia se volte a enganar no dia seguinte.



 

quarta-feira, 3 de maio de 2017

28.4.17 - Erfoud | Ourzazate | Marrakesh

Acordei sem me lembrar de ter deitado; não porque tenha abusado nas cervejas no bar mas porque o estado de desconforto com o hotel, o homenzinho da companhia de seguros, a incerteza do dia me tinham feito dormir mal.
O pequeno almoço foi o pior da viagem; não só pela comida que não havia e pelos ovos mexidos que pareciam umas claras batidas no dia anterior mas porque não tinha os meus companheiros com falar e rir.
Ontem à noite, enquanto bebia uma cerveja local no bar, trocava mensagens com eles sobre a viagem e escrevíamos sobre os muçulmanos não beberem. Ao meu lado, era cerveja vinho branco e wisky. Será que acompanhavam com chouricinhos miniatura?!
Às dez horas o responsavel pelo seguro em Erfoud veio com o taxista ao hotel para tratar, uma vez mais, da burocracia de abandonar a moto em Marrocos e seguir por outro meio de transporte.
Depois disso, foram quase 600 km com uma pessoa que não falava francês nem espanhol... e deu tempo para tudo!
A estrada passava pelas Gargantas - por onde os companheiros - e retomava a minha "velha conhecida" nacional que liga Ourzazate a Marrakesh.
Dormi, fotografei a paisagem, voltei a dormir e a fotografar. Com o passar das horas fiquei com foma mas o " arrête por manjer" não sortiu nenhum efeito por quase 80 km. 
Na cidade do cinema, num restaurante para locais, paguei dois almoços mais baratos do que nos custava o já de si barato almoço para turistas: merguez e frango assado antes de retomarmos a viagem.
Nas florestas, após um telefonema de Portugal para me dizerem que já tinha bilhete de avião emitido e que podia levar 25 kg numa só mala, depois de magicar como amarraria as malas da moto com uma cinta de reboque de modo a ficar apenas uma, olhei para o lado e vi a solução: o António Nogueira e o Orlando Romana.
"Arrête", gritei eu para o taxista. Saltei do taxi quase em andamento e expliquei por alto o que me tinha acontecido e, sem autorização, enfiei as malas no Pajero do António. Encontramo-nos em São João da Madeira!, disse eu.
Com um sorriso seguimos para Marrakesh onde, num Ibis tão igual a todos os outros, descansei à espera que me fossem buscar para o avião.




segunda-feira, 1 de maio de 2017

27.4.17 - Merzouga | Rissani | Erfoud

Tinhamo-nos deitado, uma vez mais, com um manto de estrelas por cima de nós, com sonhos e imensos planos: de viagem e pessoais.
O primeiro plano era acordar de madrugada para ver o nascer do sol no Erg Chebbi, sentir a imensidão do deserto, sermos os primeiros a receber a luz e o calor da nossa estrela.
Bem pensado, melhor executado; porque foi com alegria que caminhamos pelas dunas até nos sentarmos lá no alto à espera do astro.
Aos poucos e poucos, a luz foi surgindo a oriente e iluminou as montanhas de areia - 12 km de largura que tem o Erg - e, ao fundo, a Argélia.
Foi tempo de fotos, vídeos e sorrisos. Ficou o desejo de descer as dunas de ski, numa versão 80`s da coisa.
Ficou o desejo de voltar.
De regresso ao hotel, de regresso às motos, era tempo de retomar a aventura.
Atestados de gasolina e água, o destino eram as Gargantas. 280 km de caminho por asfalto para ver uma falha geológica por uma estrada cénica.
Pouco mais de 40 km percorridos, ao cruzar Rissani, a minha embraiagem  cedeu novamente e, desta vez, de vez.
Paramos ao lado da última casa de Rissani, numa sombra, e no mesmo instante apareceram uns miúdos. Passado um minuto, o pai deles também e sentou-se numa cadeira em frente à porta a ver-nos.
Enquanto eu falava para a Zurich, o resto da malta falava com o senhor. Depois liguei com o Zaid a fazer queixa do trabalho do Mustafa e passado 30 segundos o Mustafa estava a ligar a dizer que estava em Rissani. Apareceu, era amigo do vizinho do senhor que estava sentado à porta de casa e que já dera ordens para nos sentarmos com ele a beber chá. Respeitava o homem que nos acolhia porque ele é o chefe militar daquela zona. Com tamanha atrapalhação, com telefonemas aos gritos em árabe e puxando os galões, percebemos que o homem controlava tudo e conhecia quem nos vinha rebocar e quem iria, ao serviço da Zurich, tentar arranjar a moto em Erfoud e depois recambiá-la para Portugal.
Trocamos contactos e oferecemos um chapéu da Eni, para recordação. 
Em Erfoud, passamos a tarde num café em frente à Garagem Central à espera de uma decisão de Portugal sobre o que iria acontecer. E esperamos e esperamos... Até que um menina simpática disse-me que iria de avião para Lisboa e a moto de camião. Para ficar descansado que o colega que a iria substituir no turno estava a par de tudo e num instante vinha para casa. Ficou em Erfoud e o resto do grupo seguiu para as Gargantas. Deveriam ser cinco da tarde...  
E passarem três horas sem que o colega da simpática senhora me tivesse ligado e quando ligou não tinha grande coisa a dizer a não ser uma falta de educação atroz para quem está à frente de um serviço de excelência. Enfim!
Podia ser um filme do Kusturica mas é apenas Marrocos e eu.
Às dez da noite estava com as malas da moto e todo o equipamento que transportava, num hotel que em outras época deveria ser grandioso, com muitos dourados e uma grande piscina. Hoje em dia cheira a mofo e os armários estão escancarados. É o que há! que amanhã seja melhor.






  


sábado, 29 de abril de 2017

26.4.17 - Erg Ouzina | Merzouga


Pouco mais de 50 km separavam Erg Ouzina de Merzouga, e o plano seria percorrer essa distância de manhã para, de tarde, descansarmos e recuperar as motos no mecânico.
Antes da saída ainda deu tempo para caminhar pelo Erg e vêr a marca que as cobras deixam na areia, um ss perfeito e indelével.
O albergue, mesmo no meio da pista do Dakar, era o spot perfeito para ver, logo de manhãzinha, os aventureiros a fazerem-se às dificuldades do deserto; e eram muitos em moto e 4x4, apoiados por carros de assistência que transportavam pneus, gasolina, a bagagem para as motos irem o mais leves possíveis. Tudo aquilo que nós não tínhamos.

Na companhia do Zaid, vi os meus companheiros atravessarem  dunas e percorrer rápidamente as longas rectas empoeiradas.
A chega a Merzouga foi como a chegada a uma cidade acabada de ser bombardeada por napalm: era tanto o vento e o pó que circulava no ar que os edifícios apareciam como uma sombra.
Na minha moto tinham que tentar compor a embraiagem, na do Pedro, mudar a câmera de ar, na do Fernando foi era necessário soldar os apoios do guarda lamas traseiro. Ficou tudo ao cuidado do Mustafa do Team Gordito.
E o Zaid connosco...
A tarde foi passada na piscina do hotel, estrategicamente colocada na base das dunas. Com o vento que estava, não é difícil de perceber que a água mais parecia a da zona de rebentação de uma qualquer praia do algarve!
Quando o sol se punha foi altura de ir buscar as motos e acertar contas: 400 euros de reboque do deserto para Merzouga, 225 euros de consertar a minha embraiagem, 80 euros do transporte de 4x4 até à moto, 15 euros de mudar a câmera de ar do pneu do Pedro e 60 euros para o irmão do Zaid, que ficou umas horas ao lado da moto.
Quando tudo foi pago ao Zaid, afastou-se.
Os muçulmanos assentadores de azulejos têm o hábito de colocar um ao contrário para a obra não ficar perfeita. Fazem isso porque pensam que só Deus é que pode fazer uma obra perfeita.
Talvez por isso na minha moto faltava um parafuso de todas as peças que foram retiradas; era para não ficar perfeito!




sexta-feira, 28 de abril de 2017

25.4.17 - Ourzazate | Zagora | Erg Ouzina

Chegou o Dakar!
Era esse o sentimento partilhado na manhã do dia da liberdade.
Cedo, com as moto abastecidas, foi com grande velocidade que cruzamos o ultimo pedacinho do Atlas que nos separava do Sahara.
Com o atraso de ontem, era necessário poupar tempo para entrar na pista o mais cedo possível a fim de se evitar algum percalço.
Entre Ourzazate e Zagora,  uma estrada em serpentina digna de figurar nas mais belas estradas do mundo,  subindo e descendo um desfiladeiro, uma falha geológica que vinca a Terra e a torna agreste. Esquilos e lagartos cruzaram-se connosco na árida paisagem de rocha vermelha onde me veio à memória o jovem Marc Coma a perder horas para encontrar o waypoint.
Depois do palmeiral - uma imensidão verde, de palmeiras, que sobressai do cada vez mais amarelo da areia - Zagora aparecia como marco obrigatório para início do troço que liga a Merzouga e que outrora foi palco de disputas entre Yamaha, KTM, Honda, Peugeot, Mitsubishi, e todos os grandes nomes que fazem do Dakar aquilo que ele é.
Muitos mecânicos, muito calão português dito sem saberem o que dizem, demonstra bem como Zagora é uma Meca dos aventureiros e TTistas portugueses.
Liguei à minha mãe; motos abastecidas,  água com fartura e siga para a pista. Passava do meio dia, talvez um pouco tarde...
Antes da pista uma cáfila passeava calmamente, como se o calor tórrido não penetrasse pelo pêlo e pele do dromedário.
Pelo alcatrão, na estrada de Zagora para Merzouga, depois de rectas infindáveis, uma entrada à direita leva-nos para uma pista de saibro e areia.
Um início cauteloso depressa se transformou num andamento vivo entre piso que se alterava. Nas primeiras aparições de areia a moto tremia como varas verdes mas saíndo do trilho e percorrendo a arreia com pequenas pedras pretas, a tracção era outra e rolava-se bem.
Nesta fase, o primeiro contratempo: uma das malas do Pedro voou da moto. A imagem  na câmera ficou top!! 
Na busca de uma sombra para almoço cruzamo-nos com duas crianças. Deveriam ter 3 ou 4 anos,  com olhar triste e vago. Oferecemos água e uma lata de bacalhau com grão da Liporfir. Será que o deveríamos ter feito? Será que a água nos iria faltar?
Poucos quilómetros mais à frente, quando o calor apertava mais, paramos debaixo de uma árvore para criarmos "um bacalhau no deserto", dado ter sido esse o nosso almoço.
Forças restabelecidas e foi altura de enfrentar a segunda parte da pista. Seriam 14.30 e queríamos chegar a Merzouga ainda de dia.
Logo após a paragem, ainda com terra dura, numa lomba pensei que estava com o Yamaha do CNTT e saltei: a moto aterrou de frente e a suspensão deveria ter ficado logo ali. Por sorte conseguiu dominar a coisa e foi daqueles sustos valentes, ao estilo das imagens aéreas da mítica prova africana.
Pouco depois a areia começa a ganhar na percentagem com a terra e as opções de traçado sucedem-se, tal como as quedas. Umas melhores e outras piores.
Ao longe desde o início da pista, um Toyota seguia-nos à distância e sempre perguntando se estava tudo bem. Oferecia ajuda e dava conselhos.
Todos fomos ao chão e eu, numa dessas idas ao chão, fiquei com a o joelho e a perna presos na mala lateral, torcidos. Aguardei que o Pedro me viesse ajudar e quando saí debaixo da moto e fiquei deitado na areia a olhar o céu, lembrei-me do Meoni: do seu sorriso, do seu amor amor à aventura. Queria chorar mas já não tinha como. O meu Alpinestars estava branco por fora dado o sal da transpiração. E ainda faltavam uns 70 km até ao alcatrão.
A pista do Dakar colocou-nos à prova e ganhou: o desânimo foi grande, as máquinas cederam: a África Twin do Pedro furou e a minha embraiagem vidrou no fésfés. Foi a desistência.
Zaid, com Z como Zeus, foi quem nos salvou dali, no seu Toyota cheio de melancias. Por mais interesseiro que fosse o seu auxílio, foi ele que arranjou transporte para a minha moto e nos levou até ao Erg Uzina para descansarmos até ao dia seguinte.
Já no 4x4 vi paisagens lindíssimas que não estava a disfrutar dada a tensão da situação.
Pouco falamos disso mas com o olhar todos adivinhamos o que ia na cabeça de cada um.
Sem rede não havia forma de dizer "está tudo bem" nem a possibilidade de ouvir uma voz reconfortante, que nos transporta até casa.
Jantamos uma tajine tendo as estrelas como tecto, recuperando a paz e o amor pela aventura.
Pela noite voltamos com outro jipe à pista para ir buscar a moto e o irmão de Zaid que ficou lá a guardá-la.
Quero voltar ali. Com outras condições mas quero voltar.






quinta-feira, 27 de abril de 2017

24.4.17 - Marrakesh | Tizi n`Tichka | Ourzazate

Começou a aventura!
Finalmente saíumos das auto-estradas e começamos a ver o reino encantado de Marrocos.
saímos de Marrakesh pela manhã, depois das forças estarem retemperadas e rumamos a este, para atacarmos o Atlas e o Sahara pelo sul. O plano era fazer o máximo de quilómetros possível e ir até Agdz ou Zagora.
Após poucos quilómetros, antes da subida para Tizi n`Tichka, o primeiro contratempo: a tampa que faz a afinação da corrente da minha moto saltou fora e a corrente começou a ficar laça. Por sorte, tudo se passou em frente a um serralheiro que, tal qual a Ferrari na F1,  tratou de fazer uma peça em 5 minutos e afinamos a corrente.
Que bem que ficavam as nossas motos brilhantes no meio das mobiletes que pairavam  na oficina.
3 euros para o trabalho do homem e ainda deu para a gorjeta!
Por entre vales e montanhas, florestas lindíssimas com nomes como Iggerouka, Tagargoust, Toufligt, fomo-nos cruzando por várias motos, de vários tipos e feitios.
Numa BMW, uma simpático casal australiano, que fomos encontrar lá no alto de Tizi n`Tichka, a 2.000 metros de altitude, com quem estivemos em amena cavaqueira.
Depois de fotos e conversas, continuamos por uns quilómetros na N9 até tomarmos um caminho de cabras - e burros, literalmente - fugindo ainda mais à civilização.
Na beira da estrada, um estalajadeiro de uma casa pequena recebeu-nos simpaticamente e comemos uma tajine de kaka que estava divinal.
Depois do demorado almoço, prosseguimos viagem por paisagens áridas, aldeias perdidas no tempo, caras estranhas à nossa passagem.
Chegamos a Ourzazate às cinco da tarde e as opções eram várias: prosseguir viagem por mais uma ou duas horas, ficar no centro da vila ou ir até ao Oásis de Fint ver se poderíamos dormir lá. Optamos pela última.
No caminho, um estradão de terra e pedra, o Diogo viu o suporte da máquina de filmar partir e desaparecer da nossa vista.
No Óasis, um verdadeiro oásis de palmeiras e charcos de água com rãs, onde tiramos fotos das motos a atravessar a água e com uns miúdos que jogavam à bola com outros turistas.
Um dos miúdos deu-me um camelo feito de folhas de palmeira e saltou para cima da moto.
A noite punha-se e não havia lugar onde ficar, excepto numa garagem ou numas tendas isoladas, sem luz e cheias de melgas.
Optamos por voltar a Ourzazate.
Pela pista, à noite, alguém com 15 anos, mais coisa menos coisa, de bicicleta, um local, pediu para parar. Queria água, estava exausto. Não tinha nenhuma garrafa e tirei a que estava na moto do Fernando. Chorei ao imaginar o que custa viver.
Na cidade o destino era o Ibis... Mas o hotel ao lado custava metade e fomos para lá.
Num jantar tardio de tajines e cucus, o restaurante serviu-nos cerveja geladinha. Resultado: 30 euros de comida e 38 euros de cerveja. Nada mau para um país muçulmano!